Introduzindo a Terapia Cognitivo Comportamental no Contexto Escolar

Introduzindo a Terapia Cognitivo Comportamental no Contexto Escolar

Essa é uma entrevista realizada com a Débora Fava na primeira Edição do CONNAPED.

  • Roy Alfred

Sejam muito bem vindas. Hoje temos aqui a Débora Fava. Falarei um pouco sobre ela antes de iniciar a entrevista.

A Débora é Mestre em psicologia e cognição humana  pela PUC.

Especialista em terapia cognitivo comportamental.

Tem formação em manejo do comportamento infantil.

É terapeuta cognitiva certificada pela FBTC.

Coordenadora da ELO psicologia e desenvolvimento e organizadora do livro “a prática da psicologia na escola” introduzindo a abordagem cognitivo comportamental da Editora Artesã.

Débora, seja muito bem vinda aqui no CONNAPED.

Com certeza o que você vai transmitir aqui pra nossa audiência vai ser de muita utilidade pra quem está nos assistindo. Vou fazer uma série de perguntas e gostaria que você pudesse se aprofundar um pouco sobre o assunto, pois quanto mais informação, melhor será o proveito para nossa audiência.

Então vamos lá.

A primeira pergunta: Muitas pessoas não sabem diferenciar o psicólogo de distintas abordagens de um que seja terapeuta cognitivo comportamental.

Gostaria que você definisse o que é terapia cognitivo comportamental e onde é que esse profissional pode atuar?

  • Débora

A psicologia tem diversas abordagens, por exemplo, a psicanálise talvez seja mais conhecida que as outras abordagens.

A terapia cognitivo comportamental é uma terapia focada em metas, é mais estruturada, o paciente é mais participativo, tem o foco em resolução de problemas.

E um dos princípios básicos da terapia cognitiva é que a pessoa não sofre pelos problemas em si, mas sofre pela maneira como ela interpreta essas situações que acontecem na vida dela.

Então algumas pessoas interpretam de maneiras diferentes que as outras a mesma situação. E por isso que umas acabam sofrendo e outras não.

Essa é a diferença de passar por um assalto e seguir caminhando nas ruas no outro dia e passar por um assalto e nunca mais sair de casa, por exemplo.

A maneira como eu interpreto e o que isso significa pra mim é diferente.

Então a terapia cognitiva, ela tem a intenção de trabalhar com essa percepção diferenciada da pessoa, que tem a ver com as crenças que ela tem a seu respeito.

Então a pessoa constrói um esquema de ver o mundo, as pessoas e a ela mesma, e esses esquemas, esse sistema de crenças vai determinar o tipo de pensamento que eu vou ter acerca das situações que acontecem.

Então a terapia cognitiva trabalha por duas vias, tanto pela modificação das crenças que são os pensamentos, quanto pela modificação do comportamento.

Então modificando o comportamento eu posso modificar as minhas crenças e modificando as minhas crenças eu posso ter uma modificação no meu comportamento para deixar o paciente mais funcional, sem o stress, a ansiedade, sem a depressão, e a facilidade de resolver um conflito que deixa ele mais funcional no dia a dia.

  • Roy alfred

Onde é que esse profissional pode atuar?

  • Débora

Essencialmente, a terapia cognitiva, ela veio para ser trabalhada na clínica como uma forma de trabalhar o paciente no consultório. Mas, devido  a esse caráter mais prático que ela tem de solução de problemas, essa abordagem é muito facilmente aplicada em qualquer outro contexto.

Principalmente nos contextos de prevenção. Então, tem psicólogos que trabalham isso na área institucional, na área comunitária e nas escolas, que é o meu caso.

Então, na verdade ela é muito aplicável, porque se eu pego os princípios dela e essa forma mais prática de lidar com os problemas, aí eu consigo me adequar rapidamente a um contexto ou outro.

  • Roy Alfred

Débora, você trabalha nas instituições escolares com a finalidade de prevenção e atuação precoce nos casos de problemas de comportamento, oferecendo treinamentos e assessoria a professores para auxílio no manejo de comportamento disfuncional em sala de aula.

Qual a importância de prevenir este problema de comportamento?

  • Débora

Hoje em dia um paciente que chega pra mim no consultório, seja criança,ou adolescente, ou adulto, ele passou por uma série de eventos na vida dele e uma série de interações.

Lembra aquilo que  te falei das crenças? Ela são formadas ao longo da  vida. Então do período da primeira infância, do zero aos 2 ou 6 anos, eu tenho um período que chamamos de período crítico, que é um período de formação muito importante da personalidade, em que estou construindo a maneira como eu me vinculo com as pessoas, como eu interpreto o mundo, como vou interpretar as situações.

Então é a fase mais importante em que vou decidir se vou arriscar ,se vou resolver, se vou  me retrair. Se eu tenho nesse período da infância uma parte crítica de formação da minha personalidade, aquele período vai dizer muito da maneira como vou viver o resto da minha vida, se vou ter algum problema ou não, se vou a algum consultório de terapia no futuro ou não, pra resolver alguma coisa.

Então o caráter preventivo na minha atuação se dá nas escolas em função da importância que é esse período do desenvolvimento crítico.

Então se eu prevenir que ela desenvolva formas de pensar que não vão ser funcionais para ela, se eu prevenir isso naquele momento, eu previno também que ela tenha problemas maiores que chegam no consultório.

Porque a criança desenvolve mal os comportamentos. Por exemplo: ela apresenta comportamentos ruins. Normal de todas as crianças. Elas apresentam birras, manhas, desafiam, isso é normal.

Agora a intensidade e a frequência com que isso vai acontecer na primeira infância, vai predizer um problema de comportamento no futuro.

Então se eu tenho uma criança que naturalmente faz uma birra, e essa birra não é facilmente manejada, os profissionais que atuam, o pai, a mãe, não sabem lidar com isso, vão construindo nela um padrão de funcionamento.

Esse padrão de funcionamento mais tarde pode se tornar uma psicopatologia, um problema sério de conduta, um transtorno desafiante opositor. Então é nesse sentido que é a maior prática preventiva.

  • Roy Alfred

E quais são os procedimentos que são feitos para poder prevenir esses problemas?

  • Débora

Essencialmente é a interação do adulto com a criança, porque tem dois processos principais de construção da personalidade que eu costumo falar com os professores.

Um é a modelação e o outro é a modelagem. A modelação é o quanto eu me espelho naquele adulto que  tá sendo referência. O pai, a mãe, o professor.

Eu me modelo a partir da atuação dele. Então se eu tenho adultos que se relacionam bem com as pessoas e tem boas práticas de solução de problemas, a criança vendo isso, tenta copiar essas habilidades.

O outro processo que é de modelagem, é como que o adulto vai responder ao comportamento da criança. Se uma criança se joga no chão, bate no colega, por exemplo, que também é um comportamento comum, posso simplesmente pegar ela no colo, afagar ela, acalmar ela.

Se eu fizer isso, eu vou estar reforçando aquele mau comportamento. Na verdade eu tenho que ensinar pra ela que aquilo não é legal e ensinar uma nova forma  de resolver aquele problema.

Então, esses dois princípios que são da formação da personalidade, que eu trabalho com os professores, são aqueles que preciso modificar com esses adultos.

Então a pergunta foi, quais são os procedimentos? O procedimento é de orientação dos professores desse manejo, dessa interação que eles vão estabelecer com as crianças da sala de aula.

  • Roy Alfred

O resultado deste trabalho, atua simplesmente nas relações escolares ou permite que as crianças tenham toda uma estruturação pro seu convívio pessoal e profissional?

  • Debora

Sim. Se eu estabelecer boas relações eu aprendo a ter boas relações na escola com os professores. Eu vou aplicar isso nas outras áreas da minha vida.

Se eu tenho uma boa educação em casa, por exemplo, a maior chance é que eu repita aquilo que eu aprendi de forma assertiva nos meus outros ambientes.

Porque se eu venho aprendendo a ter boas relações, eu tenho tido adultos que me ensinaram a ter boas práticas com os meus pares, eu vou levar isso pro futuro.

Então, é a minha personalidade que vem sendo formada desde aquele período da infância, desde o nascimento até a minha entrada no ensino médio, até a maneira como vai encarar um vestibular, um mercado de trabalho, uma relação amorosa, dos meus conflitos da vida adulta.

Então com certeza o que aprendi na infância e o que aprendo nessa prática com os professores, eu levo adiante sim.

  • Roy Alfred

Como é que as crianças formam a sua personalidade?

  • Débora

Tem duas questões bastante importantes: primeiro é o temperamento. Então temperamento é aquilo que é observado nos bebês em uma maternidade.

Todos os bebês nascem, agem de acordo com seu temperamento, que é aquilo que é herdado geneticamente.

Então eu herdo um temperamento mais difícil, que eu demoro um pouquinho mais pra me adaptar às diferenças, que eu tenho um pouco mais de dificuldade em tolerar uma frustração, que eu nao consigo me adaptar a uma situação. Então, por isso que a minha emoção ela vai ser um pouquinho mais ativada.

Eu vou ser uma criança mais reativa, outras crianças ao extremo disso serão mais retraídas, vão ser mais calmas, vão ser mais desconfiadas, as outras serão o que chamamos de temperamento mais fácil, que é aquele temperamento que se adapta fácil a diversas situações, que se uma criança roubou um brinquedo, rapidamente ela já resolve de outra forma, já vai em busca de outra situação que traga um agrado.   

Então essa é a parte do temperamento, somada a isso que a criança já nasce com seu temperamento, vamos tendo aprendizagens ao longo da vida, e essas aprendizagens, elas também vão moldando nosso temperamento.

Não significa que eu tenha nascido com temperamento difícil que seria difícil o resto da vida. Se eu tiver boas práticas dos pais no primeiro momento, eu vou conseguir modelar aquele temperamento deles.

Era mais difícil, eu chorava muito por qualquer coisa, mas meus pais me ensinaram a ter calma, meus professores me ensinaram boas formas de solucionar problemas, eu consegui tolerar a frustração de uma maneira legal, eu consegui me apegar com adultos em um vínculo seguro, que me demonstrasse segurança.

Então a personalidade é formada pelo temperamento e pela aprendizagem que a gente chama na psicologia cognitiva de caráter. Então temperamento mais o caráter formam a personalidade.

E a personalidade é a maneira como é o nosso jeito de ser, e o nosso jeito de ser é expresso por padrões cognitivos, padrões emocionais e padrões comportamentais.

  • Roy Alfred

O que é psicopatologia?

  • Débora

É o problema, é diferenciar um mau comportamento do comportamento patológico.

Então, em termos de consultório, temos psicopatologias, o transtorno obsessivo compulsivo, transtorno de personalidade borderline, transtorno depressivo maior.

Estar triste é um problema para a maioria das pessoas, ter um transtorno depressivo maior então eu tenho uma psicopatologia.

A psicopatologia são diversos transtornos que foram organizados no DSM- 5, então a partir dali fazemos o diagnóstico.

Mas na minha atuação temos que diferenciar o comportamento normal do patológico,  porque na infância é muito normal as crianças se comportarem mal.

Na vida adulta não. A gente já se modelou, já aprendeu ou não. Somos aqueles adultos que têm dificuldade de comportamento e não consegue se estabelecer e não consegue manter boas relações.

Lembra que te falei q uma birra pode ser confundida com transtorno de conduta?

É um transtorno sério do comportamento, traz muita preocupação quando chega no consultório uma criança com esse transtorno.

Mas muitas pessoas podem pensar que essa criança já tem esse transtorno de conduta muito antes dela ter, que é quando ela está tendo mais práticas parentais, mais práticas dos professores com ela e ela ta simplesmente respondendo aquilo ali.

Não significa que ela tenha uma psicopatologia. Então é muito mais fácil de eu conseguir modificar um problema do que uma psicopatologia.

E principalmente porque a psicopatologia causa um prejuizo clínico significativo na vida do individuo, acadêmico, social, professional.

Então, antes da gente ter esse grande prejuízo na vida, eu posso ter maus comportamentos, alguns problemas, alguns sofrimentos que não vão ser tão grandes quanto em uma psicopatologia.

É um foco de atenção mas não necessariamente uma psicopatologia.

  • Roy Alfred

Como é que você pode prevenir o mau comportamento em sala de aula?

  • Debora

Melhorando as práticas dos professores. Eu trabalho desde o berçário orientando os professores. Deixa eu dar um exemplo prático que acontece em todas as salas de aulas:

Duas crianças brigam por um brinquedo. Tinha uma criança brincando com um brinquedo e a outra vai lá e puxa e a outra começa a chorar.

É muito simples essa situação, quem tem filho já passou por isso.

Você me perguntou, como que se pode modificar isso?

Um professor pode simplesmente ir lá e dizer, devolve pro seu colega, é dele.

Vai resolver o problema de forma imediata. A outra vai parar de chorar e aí eu vou dar um outro brinquedo que satisfaça a outra criança.

Mas a ideia de promover um bom desenvolvimento sócio emocional não é fazer uma coisa simples dessa, de resolver de imediato.

É a gente tentar fazer com que as crianças entendam o que aconteceu, então sinalizar emoção. “Olha, vi que você ficou chateado, bravo, você está chorando porque ele tirou seu brinquedo? De que forma podemos resolver isso?”

Chama a outra criança. Então crianças de um ano e meio, dois anos e meio a gente pode fazer esse tipo de interação.

E elas nos surpreendem porque, quando a gente dá a oportunidade pra elas mostrarem e pra elas conversarem com a gente, ou seja, não vamos fazer por elas, vamos ensinar elas a fazer.

Elas dão ideias, “Brinca comigo ou então eu te devolvo e a gente brinca com esse um pouquinho, ou a gente pode montar juntos cada um apanha uma peça de uma vez”

Então é ensinar a criança a solucionar um problema.

Por exemplo: outros problemas de sala de aula.

Simplesmente acabou o tempo da atividade e a professora sai porque tá na hora de jantar ou do almoço, e a gente pode sinalizar essas pequenas mudanças da rotina pra criança.

“Pessoal, daqui a 2-3 minutinhos, a gente vai finalizar nossa atividade, quem não terminou não tem problemas, finaliza depois, precisamos ir jantar”

Então tem que fazer esse pequeno anúncio de que vai vir uma outra atividade.

Estamos desenvolvendo a capacidade de planejamento.

E se consigo planejar melhor eu consigo me organizar melhor nesse tempo e eu consigo também prevenir um comportamento que a gente chama de intolerância à frustração porque daqui a pouco a criança fala “Ah mas eu não terminei, não quero comer agora, não terminei, preciso fazer isso”.

Por mais que a professora fale:  “mas você pode terminar depois“.

Só que no momento  a emoção de frustração tá ativada, a gente não vai ter o mesmo sucesso do que teria se a professora tivesse feito esse anúncio.

Aí por exemplo, essa criança vai pro refeitório, e aquela emoção tá ativada. Já é uma criança que não vai respeitar o refeitório, que não vai comer bem, que não vai comer da forma esperada.

Então a gente gera um problema atrás do outro e o que acontece?

A gente costumava fazer assim, essa criança tá com problema, encaminha para psicoterapia.

Mas olha quanta coisa antes podia ter sido feita pra que não pudéssemos ter problemas.

Então quando eu trabalho com essas consultorias em escolas eu tento ensinar essas práticas.

Essas são algumas práticas de interação que vão prevenir o mau comportamento.

Se eu previno isso, eu previno toda a construção de crenças disfuncionais , de comportamento disfuncionais, que vão gerar um problema maior na frente.

E aí essa criança vai ser encaminhada pro meu consultório já em sofrimento, com uma família desestruturada, que já foi chamada na escola várias vezes porque a criança não para de morder, porque a criança não para de bater, porque ela não aceita uma nova tarefa.

Então é nesse sentido de procedimento que a gente faz.

  • Roy Alfred

Você utiliza reforços para obter resultados? Como é que você faz e qual reforço é utilizado?

  • Débora

Com certeza. Eu costumo dizer que punir uma criança funciona, mas não funciona se não tiver reforço. Porque senão não tem porque a criança se comportar bem.

Então, toda criança que se comporta bem ela tem que ser reforçada pelo comportamento.

Mesmo coisas muito simples, como por exemplo: ela tá comendo a comida dela de uma forma ok. Tá comendo normal.

Algumas pessoas pensam: Mas é óbvio que ela tem que comer a comida dela!

Não. Não é óbvio.

Ela tem que ser reforçada por isso.

“Então parabéns! Você tá bem comendo tão bonito a sua comida, tô orgulhosa de ver você comendo sua comida desse jeito”

Ou então a criança botou o sapato dela. É óbvio que uma criança de 3 anos já consiga colocar um sapatinho se não for de amarrar. É falar pra ela, “legal, você já colocou seu sapato”.

Então, esse tipo de reforço é desde essas coisas muito simples como também reforçar o esforço da criança em ter tentado por exemplo, uma interação com o colega que estava com um problema.

Então deixa eu te dar um exemplo que aconteceu comigo recentemente.

Uma menina estava no penico tentando fazer um treino pra usar o toalete.

Ela ficou muito assustada na hora que o coco tava saindo porque ela não sabia o que era e tinha dificuldade pra falar.

E aí veio uma outra criança de dois anos e meio e falou “calma vai ficar tudo bem. Você quer que eu traga um livro pra gente ler?”

E aí eu falei “muito legal, que bom você tá ajudando a sua amiga” ela foi lá, pegou o livro e trouxe, “agora você vai ficar mais calma”.

Então é claro que essa criança que fez a ajuda, ela também já foi ensinada dessa forma e ela tá repetindo e hoje tá podendo acalmar e ajudar e dar uma alternativa para aquela criança que ia chorar.

Se ela chorasse, ela ia prender o esfíncter e não ia sair o cocozinho dela no penico.

“Foi muito legal isso”, e reforçar a outra criança também, “Que bom, fiquei tão feliz que você aceitou o livro, parabéns!”.

Antes eu falei pra você, punir a criança funciona, claro.

Então se a criança fez algo de errado e ela sabia que não era pra fazer aquilo, ela deve ser avisada sobre isso.

E aí é a punição. E tem alguns tipos de punição. Eu posso simplesmente gritar com ela, xingar, desaprovar o comportamento ou eu posso também privá-la do convívio social com algumas crianças se ela estiver muito agitada e precisa de um tempo pra se acalmar.

Eu posso também aplicar uma penalidade que é deixar ela sem brinquedo, caso ela tenha feito algum mau comportamento que não era esperado para idade dela.

É sempre assim. Eu só vou punir uma criança se eu tiver certeza de que ela foi avisada, e que ela entendeu que ela já poderia ter tido determinado comportamento.

Então eu não posso punir uma criança por ter jogado alguma coisa longe, mas ela pensou que aquilo era um brinquedo também porque antes nós estávamos jogando bola.

Então a gente tem que avisar: “Pessoal, agora estamos jogando bola, mas agora nós vamos brincar de fazer tal atividade e essa atividade é assim que se faz, todo mundo entendeu?”.

Então a partir daí só vou poder punir ela, desaprovar ela, se ela jogou algo no chão.

Senão vou ter que ensiná-la de uma forma mais diferenciada que é: “Olha, antes estávamos jogando assim, e entendo que você tenha jogado longe porque nós estávamos fazendo isso com outros materiais, mas esses a gente não faz’”.

Senão teremos um professor que vai sempre punir crianças, mas eles não sabiam o que era esperado pra eles. Então a gente considera que é óbvio que eles saibam.

Mas aí tem que reforçar, porque não se torna óbvio. Então eu preciso que a criança saiba que é aquilo que é o esperado dela.

  • Roy Alfred

No seu projeto de consultoria de escolas, quais são as etapas que você utiliza e como se aplicar isso?

  • Débora

Tem duas formas da gente trabalhar com professores e com pais nas escolas nessa abordagem cognitiva comportamental.

Uma delas é eu fazendo uma consultoria, uma assessoria, sendo chamada pra ir lá fazer uma orientação, e capacitamento profissional.

A outra forma são psicólogos escolares, então infelizmente nem todas as escolas têm psicólogos escolares.

O nosso conselho de psicologia tá fazendo uma movimentação para que isso seja obrigatório devido a tamanha importância que tem.

Mas então quando o psicólogo escolar atua na escola, ele tem mais tempo. Ele é contratado por 12h, 20h, 30h,40h, enfim.

Mas ele pode atuar dessa forma. Então, eu sou psicólogo escolar e tenho esse tipo de abordagem na minha atuação profissional.

Eu não sou psicólogo escolar, então eu trabalho em consultório e presto assessoria.

As escolas sabem do meu trabalho, me chamam e falam assim:

“Débora, a gente tá com um problema que tem uma turma e algumas professoras não estão conseguindo interagir com as crianças de uma forma saudável. Estamos vendo que são professoras que estão sempre chamando a atenção dos alunos, sempre dizendo não, ou então a gente tem uma turma que há meses já tá se comportando mal e não estamos conseguindo reverter essa situação. Vem aqui pra gente sentar e dar uma olhada pra ver o que está acontecendo.”

Então eu vou na escola, converso com a equipe pedagógica, a gente vê o que está acontecendo e eu atendo a essa demanda.

Na maioria das vezes, a demanda é de encontro com os professores, pra gente conversar sobre esses aspectos que podem estar interferindo e gerando esse mau funcionamento da escola, da relação entre professores e alunos.

Algumas vezes esse encontro vai durar um dia, vai ser uma participação minha na formação continuada desses professores que já acontece na escola.

Ou então vão ser algumas supervisões, ou então vamos fazer um dia ou dois de um workshop de alguma sequência de palestras de orientações.

Algumas vezes eu faço uma supervisão de um caso específico.

“Ah eu to com dificuldade com essa criança e percebo que ela às vezes movimenta o comportamento das outras crianças, o que gera desconforto”

Então eu vou lá e oriento essa professora a como fazer com essa criança para prevenir que se gere todo esse problema.

Então é bem uma orientação de acordo com a demanda. A gente vai vendo quantas horas são necessárias, se vai ter supervisão, se vai ser uma coisa mais de treinamento geral para a equipe da escola e etc.

  • Roy Alfred

Essa foi a última pergunta, você tem mais alguma coisa a considerar para quem está assistindo?

  • Débora

Tenho. Eu vejo que a abordagem cognitivo comportamental tá crescendo nesses ambientes escolares porque as demandas aumentaram e a gente tá vendo a importância e como que a abordagem se encaixa aí.

Mas é muito importante que o profissional que vai fazer isso tenha experiência com criança, com família, com escola.

Tem que ter uma visão mais sistêmica. Não é assim,eu sou a terapetuta cognitivo comportamental, vou pegar esse nicho e vou entrar na escola.

Não! Tem que ser um profissional que saiba de desenvolvimento infantil. Que tenha uma visão sistêmica da família porque a maneira como vou interagir com o professor no treinamento vai ter um reflexo na família, na criança, nas colegas, nas professoras e então a gente precisa ter bastante experiência e bastante cuidado.

A abordagem cognitivo comportamental foi muito criticada por pessoas e outros psicólogos que não tem conhecimento sobre a abordagem. Dizem que é um conjunto de técnicas que a gente pega e aplica nos pacientes.

Possivelmente esse engano foi criado em função de preconceito, de não saber como que é a abordagem.

E também porque alguns profissionais simplesmente saem aplicando técnicas. E essa abordagem tem uma tendência de ser mais breve, mais de solucionar aquelas metas que o paciente teve, mas envolve muitas questões de relações terapêuticas, de colaboração entre terapeuta e paciente.

Então é esse caráter de entender o funcionamento, de entender como que se originou aquele problema e a partir disso eu vou usar as ferramentas, a TCC , as técnicas, as estratégias terapêuticas.

Esse contexto que também tem que ser levado pra escola.

Eu não posso simplesmente chegar na escola e começar a dizer pras professoras o que é punir, o que é reforçar.

Quais são os comportamentos que punem e que reforçam?

Não é tão simples assim.

Primeiro a gente tem que ensinar a escola, a equipe a ter uma observação ativa.

A realmente saber observar e ver qual é a relação entre o comportamento e outro pra a partir daí, eu conseguir entender os fatores que originam o mau comportamento, e aí então propor uma mudança.

Então o meu recado é cuidar com esse contexto. Não ser tão simplório e chegar lá e dizer: “olha a gente pune criança dessa forma, castigo é assim , reforço é assim”.

É muito mais do que isso.

Fim da entrevista.

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4 Comentários

  1. Sirlene Maria de Lima Moreira disse:

    Excelente entrevista, gostei demais.
    Grata , abraços!

  2. Monica disse:

    Ótima a abordagem cognitivo comportamental

  3. Carina Brandão disse:

    Sensacional. Essa é realmente a grande dificuldade nas escolas hoje em dia. O comportamento.
    Quando você tem um problema vê não sabe como resolver, chame alguém que saiba!!
    Parabéns pela entrevista Roy Alfred e parabéns pelo trabalho maravilhoso com a escola Débora Fava.
    Já passei seus contatos para meu diretor.

  4. Cristina Scudiere disse:

    Adorei a entrevista. Não tenho mto embasamento em psicologia na escola. Vou aprender com vcs. Estou precisando saber como lidar com estes comportamentos e temperamentos difíceis.