O impacto da prematuridade no desenvolvimento infantil

O impacto da prematuridade no desenvolvimento infantil

NATHÁLIA OLIVEIRA ENTREVISTA JULIANA LAUTENSCHLAEGER DAMARI

Nathália Oliveira

Olá, meu nome é Nathália Oliveira, e hoje vim entrevistar a professora especialista e mestranda, Juliana Lautenschlaeger Damari, para tratarmos sobre a prematuridade infantil. Juliana é pedagoga, pós-graduada em Neuropsicologia Aplicada à Neurologia Infantil. É pós-graduada também em Psicopedagogia, com ênfase em Clínica Institucional e Educação Especial em uma perspectiva inclusiva. Além disso, é vice-diretora e coordenadora pedagógica em uma escola da rede municipal de Americana, além de ser docente dos cursos de pós-graduação, nos programas de Psicopedagogia e Educação Especial. Tem conhecimentos em pesquisa na Neurociência, além de vasta experiência como psicopedagoga. É coautora da Cartilha da Inclusão Escolar. Juliana também é mestranda na UFPR na área de Neuropsicologia e membro da diretoria da ABENEPI, Paraná, atuando, principalmente, nos seguintes temas: Inclusão Escolar, Transtornos de Aprendizagem, Avaliação e Intervenção Neuropsicológica e Resiliência. Seja bem-vinda, Juliana.

Juliana

Olá, Nathália, tudo bem? Primeiramente, eu quero agradecer o convite que me foi feito e parabenizar você e o Roy pela iniciativa de trazer para a discussão assuntos tão pertinentes e atuais como o que nós vamos falar, que é o impacto da prematuridade no desenvolvimento infantil, bem como os outros assuntos que serão abordados pelos outros profissionais. Para justificar um pouco a importância de falar desse tema, eu vou fazer um breve panorama da prematuridade no Brasil. O Brasil é o décimo país do mundo em números de partos prematuros, o que nos coloca no mesmo patamar de países de baixa renda, como a Índia por exemplo. Para ser um pouco mais específica, por dia, 931 partos ocorrem antes do tempo previsto, o que equivalem a 40 nascimentos por hora. Com o avanço da tecnologia, a literatura já nos mostra que bebês nascidos com apenas 22 semanas são capazes de sobreviver aos impactos da prematuridade, mas, apesar destes avanços, o mesmo não acontecem com relação à prevenção e o acompanhamento dessas crianças após a alta hospitalar; então, é um assunto extremamente importante de ser divulgado e conscientizado para a população em geral. Este não é um problema só da classe médica, mas de saúde pública em geral, e nós precisamos de mais pesquisas e mais intervenções no sentido de prevenção do parto prematuro. São inúmeras as causas que pode levar a um parto prematuro. Algumas situações nós não temos como intervir diretamente, mas já se conhecem muitos fatores de risco que podem levar a um parto prematuro, e muitos deles nós conseguimos evitar ou amenizar com visitas frequentes da gestante ao obstetra, por exemplo, que vai fazer um acompanhamento sistemático dela e, dessa forma, minimizar as chances e o risco de um parto prematuro. Vale, também, ressaltar que a prematuridade é uma das principais causas de mortalidade entre crianças de zero a cinco anos, o que nos coloca em uma situação difícil, já que o Brasil está entre os 10 países do mundo com maior número de partos prematuros.

Nathália

Muito bem. Nos últimos anos, muitas pesquisas foram realizadas com o objetivo de compreender mais claramente quando e quais os problemas que a criança prematura pode desenvolver ao longo da sua vida. Então, gostaria que você definisse para mim o conceito de prematuridade e os efeitos dela no processo de aprendizagem.

Juliana

Bom, segundo a Organização Mundial da Saúde, o bebê prematuro é todo aquele que nasce antes da trigésima sétima semana de gestação. Embora para a população em geral, a idade gestacional contada em semanas possa ser um pouco confusa, para a comunidade médica, essa contagem de desenvolvimento é a mais usada, então, todo bebê que nasce na trigésima sétima semana é um bebê considerado prematuro.  Porém, dentro dessa gama de bebês, nós temos subcategorias, pois, não estamos falando do mesmo bebê e das mesmas condições. Um bebê prematuro de 28 semanas, por exemplo, e um bebê prematuro de 34 semanas, que é o bebê prematuro tardio têm níveis de desenvolvimentos diferentes. O bebê prematuro tardio é aquele que nasce entre 34 e 37 semanas; já o bebê prematuro moderado é aquele que nasce entre 32 e 33 semanas. O muito prematuro nasce com 28 e 31 semanas e o prematuro extremo nasce antes das 28 semanas de gestação. É importante ressaltar, também, a questão do peso de nascimento. Existe um ponto de corte de peso de nascimento considerado baixo peso, que é aquele bebê que nasce com menos de 2 kg e meio, e é considerado muito baixo peso o que tem menos que 1kg e meio. Os bebês de extremo baixo peso têm menos de 1 kg. Essa não é uma categoria só para bebê prematuro, é para bebês em geral. É importante destacar a questão do peso, porque os recém-nascidos extremos e com peso inferior a 1kg, considerado extremo baixo peso, são os que tem maiores chances de complicações no seu desenvolvimento, porém, não é regra geral, mas os estudos têm evidenciado que é uma população com maiores chances de complicações. Não é que todo bebê prematuro vai apresentar alguma dificuldade no processo de aprendizagem e no desenvolvimento, mas, a probabilidade de isso acontecer aumenta demasiadamente. Então, por que o parto prematuro pode interferir no processo de aprendizagem? Eu vou trazer para vocês, rapidamente, o que acontece no desenvolvimento cerebral entre o segundo e terceiro trimestre gestacional. Existe um desenvolvimento bastante importante nesse período, como a migração neuronal, por exemplo, que é quando os neurônios vão migrar da parte central do cérebro para as partes mais periféricas, como a superfície. Para que isso aconteça, nós vamos necessitar da proliferação das Células da Glias. São essas células que vão conduzir, harmoniosamente, essa migração neuronal e organizar esses neurônios na superfície do cérebro. Juntamente com esse processo nós teremos o Crescimento Axonal, que será futuramente responsável pelas sinapses e que vão trazer as possibilidades de aquisição das habilidades cognitivas. Junto, também tem a Mielinização, que é a formação da bainha de mielina, responsável em proteger esses axônios e garantir a sinapse de forma mais rápida e efetiva. E, por fim, nós temos a estabilidade de toda essa conectividade neuronal, portanto, são processos bastante importantes e nada pode interferir durante esse desenvolvimento. Então, durante esse processo, mesmo na vida intrauterina, a mãe não pode tomar nenhuma medicação sem uma orientação especifica do médico. A gente já sabe que a ingestão de álcool, tabaco e drogas ilícitas interferem em todo esse processo, como também é um fator de risco para o parto prematuro. Se o bebê nasce durante esse período – e a grande maioria que nasce prematuro nasce durante esse trimestre, ou seja, entre o segundo e terceiro trimestre – esse processo vai acontecer no ambiente adverso, sem o filtro uterino, o que pode levar a um crescimento não harmonioso de todas as conexões e, futuramente, essa criança irá apresentar problemas no processo de aprendizagem.

Nathália

Muito bem. Existem muitos estudos sobre isso. O que eles têm revelado?

Juliana

Bom, os estudos têm revelado que essas crianças possuem maior risco de apresentar comprometimentos significativos, tanto nos aspectos motores, como nos comportamentais e no processo de aprendizagem. Para ter uma noção dessa probabilidade, o parto prematuro aumenta em 6 vezes as chances de uma criança apresentar problemas cognitivos e motores e, também, associados a transtornos do desenvolvimento, como por exemplo, TDAH. Na realidade, o parto prematuro aumenta em 3 vezes as chances de a criança desenvolver esse transtorno. Nós também temos associado o Autismo e os transtornos específicos de aprendizagem, sejam verbais ou não verbais. Os verbais são aqueles que a gente trabalha com a criança nas escolas, e já está bem definido e conhecido, que são os transtornos específicos de aprendizagens, como dislexia, disotorgrafia, disgrafia, discalculia, entre outros. Então, essas crianças apresentam um risco maior de apresentar esses problemas, ou seja, esses transtornos de aprendizagem; não só os transtornos específicos, mas como no processo de aquisição das habilidades acadêmicas. A criança também irá necessitar de uma vigilância de possíveis efeitos neurológicos e desenvolvimentais. Então, é uma criança que precisa de um acompanhamento alongado, sistemático, para prevenir algumas questões que a gente sabe que pode vir a acontecer. Na realidade, 50% dessas crianças nascidas pré-termo, tem maiores chances de apresentar necessidade de um atendimento educacional especializado, como, também, demandar de utilização de serviços públicos nos seus diversos aspectos, como saúde, educação e social em geral.

Nathália

Quando falamos sobre prematuridade, costuma-se ouvir sobre micro lesões vasculares. O que são elas e por que podem ocorrer no bebê prematuro?

Juliana

Quando o bebê nasce prematuramente, os seus órgãos, de uma forma geral, não estão amadurecidos nem adequados para os impactos do meio ambiente. Como já falamos anteriormente, esse desenvolvimento vai ocorrer no ambiente adverso, sem o filtro uterino. As interferências externas, como o período da UTI, por exemplo, podem interferir nesse desenvolvimento. Então, o que é mais comum acontecer? Quanto mais prematuro e quanto menor for o seu peso ao nascer, maiores as chances de intercorrências e mais intervenções na UTI neonatal esse bebê vai precisar, impactando todo esse desenvolvimento. O primeiro problema que esse bebe vai apresentar, que frequentemente apresenta, é o problema para sobreviver, para respirar, por exemplo. Esse bebê nasce com o pulmão extremamente imaturo e com uma deficiência da proteína surfactante, que é a responsável pelo amadurecimento. Ele vai precisar de suporte ventilatório, de oxigenação, e isso pode impactar o cérebro que ainda não é maduro o suficiente para suportar esses procedimentos; é um cérebro instável. Ao precisar de toda essa intervenção, pode ocorrer a hemorragia intraventricular. No cérebro, existem vasos sanguíneos muito próximos do ventrículo e um cérebro instável, fragilizado e com todas essas intervenções, predispõe a hemorragia, ou seja, isso pode causar sangramento dentro dos ventrículos. Para você entender, deve ter apenas o liquido transparente lá, no entanto, há um derramamento de sangue dentro dele. Também temos a hemorragia periventricular, que é na parte mais periférica do cérebro, na substância branca. Esse sangramento vai causar uma lesão e essa lesão vai modificar todo o processamento e desenvolvimento desse cérebro. Essas lesões são detectadas em exames, porém, existem eventos mais leves durante todo esse processo que não são detectadas em ressonâncias, mas que podem refletir em problemas de aprendizagem futuros.

Nathália

Quais os problemas que esse bebê prematuro que teve micro lesões pode vir a desenvolver?

Juliana

As complicações aumentam de risco conforme o grau de prematuridade e conforme o grau dessas lesões. Os efeitos imediatos que a gente pode perceber nos primeiros anos de vida se referem mais ao acidente vascular cerebral. 7% dessas crianças podem apresentar um quadro de AVC. Durante muito tempo acreditava-se que apenas adultos pudessem ter um quadro de AVC; porém, hoje, já sabemos que não. Essas crianças estão muito suscetíveis a crises epiléticas e convulsivas, por conta desse processamento instável do cérebro. Elas também podem vir a desenvolver uma deficiência intelectual. 4 a 5% dessa população pode apresentar um quadro de deficiência intelectual; 1% a 2% dessas crianças apresentam um quadro de surdez pelo próprio desenvolvimento, ou seja, pelo próprio impacto da prematuridade, como, também, por alguns medicamentos e antibióticos que são necessários ministrar nessas crianças, porque, assim como o pulmão ou outros órgãos, o seu sistema imunológico é bastante fraco. Frequentemente, essa criança vai necessitar de algum antibiótico para controlar uma infecção, e a grande maioria das vezes, esses antibióticos podem causar a surdez na criança. Temos, também, a cegueira, que é muito comum, de acordo com grau de prematuridade. É consequência de vasos sanguíneos que estão mal desenvolvidos e não estão amadurecidos como, também pode ser uma questão de suporte ventilatório (da oxigenação) que pode vir a levar um descolamento da retina e outros efeitos a longo prazo como, por exemplo, alterações cognitivas. Também há um rebaixamento do QI que, muitas vezes, iremos perceber apenas quando a criança entra no ensino fundamental, onde ela tem dificuldade de abstração, de aprendizagem de uma forma geral, onde vamos observar a chamada disfunção executiva. A função executiva é um conjunto de habilidades que nos permite levantar estratégias, ter alguns objetivos e metas, traçar um planejamento, monitorar nosso comportamento, até que nosso objetivo tenha sido alcançado, entre outros exemplos. Esse é um conjunto de habilidades que a gente utiliza no nosso dia a dia sem pensar, como acordar, se preparar para o dia, para a escola, para o trabalho etc.; então, a gente se organiza dentro de um tempo, dentro de um espaço. Essas habilidades também fazem parte e são responsáveis por outras mais complexas. Essas crianças apresentam uma disfunção muito grande na função executiva e a literatura, vale ressaltar, tem demonstrado que a função executiva é primordial e importantíssima para um desfecho de sucesso na vida do indivíduo, não só para a aquisição e um bom desempenho acadêmico, mas para um desfecho de sucesso em geral. Durante muito tempo, acreditava-se que um alto QI era determinante para uma vida de sucesso, tanto na questão acadêmica como na vida em geral. Mas, hoje se sabe que a função executiva exerce um papel mais importante do que o próprio QI, e essa habilidade pode ser estimulada. Essas crianças também vão apresentar uma dificuldade de memória de trabalho e de planejamento. Quando comparada às outras crianças da mesma idade e da mesma escolaridade, iremos perceber que elas têm dificuldade de se organizar, de executar algumas atividades que lhe foram passadas com três ou mais consignas, porque elas têm uma deficiência na memória de trabalho, no planejamento e, também, a questão da atenção que falamos anteriormente, sobre o TDAH. Então, elas têm um rebaixamento dessa capacidade, nessa habilidade atencional. Elas também terão, a longo prazo, os problemas motores, de planejamento, coordenação motora e habilidades visomotoras. Então, esses são alguns problemas e algumas dificuldades que essas crianças podem apresentar em curto prazo a longo prazo.

Nathália

Qual a importância para os profissionais que vão trabalhar posteriormente com essa criança, quando ela começa a apresentar problemas cognitivos, saber que ela nasceu prematura? Porque muitas vezes, no momento da anamnese, os pais acabam omitindo fatos, inclusive a questão da prematuridade.

Juliana

Sim. Essa é uma pergunta bastante importante para a gente falar um pouco da atenção precoce. Antes dessa criança apresentar esses problemas de aprendizagem e cognitivos, precisamos saber que essa criança vai precisar de uma intervenção precoce para minimizar esses impactos. Sobreviver à UTI neonatal não significa sobreviver sem problemas. Na realidade, o ideal é que essa criança seja acompanhada logo após alta hospitalar e tenha um acompanhamento prolongado, até os cinco anos de idade. Embora a gente saiba que a maior janela de oportunidade para intervenção, principalmente na questão do neurodesenvolvimento e de aquisição de habilidades cognitivas, é até os 2 anos de idade, sabemos, também, que essas crianças podem apresentar problemas que vão ser perceptíveis e diagnosticados apenas mais tarde, como falamos agora a pouco. Esses profissionais, não só da área da educação, pensando na alta dessa criança e em uma intervenção precoce, devem indicar o acompanhamento multiprofissional, pensando em uma intervenção para minimizar os impactos antes que aqueles problemas venham a ser consolidados e concretizados. Não é feito por apenas um profissional, e, sim, deve ser um trabalho desenvolvido multiprofissionalmente, normalmente envolvendo neuropediatra, fonoaudiólogo, oftalmologista, enfim; uma série de profissionais que podem ser mais importantes em um ou outro momento, mas, que vão vir com uma estimulação precoce, tentando minimizar esses impactos. Essa equipe vai encontrar um “GAP” nesse desenvolvimento para estimular e minimizar todo esse quadro que pode vir a apresentar futuramente. Você disse uma coisa bastante importante: escola precisa ter essa informação. Muitas vezes, os pais omitem porque nem eles mesmos sabem ao certo. Não são todos que têm a informação das implicações de um parto prematuro, então, cada escola tem que buscar essa informação e ter um olhar mais cuidadoso, mais atencioso para essas crianças.

Nathália

E quais os exames podem ser feitos, nesse caso, para detectar esses problemas posteriormente?

Juliana

Nós temos, hoje, várias escalas de desenvolvimento que podem ser aplicadas para podermos acompanhar a trajetória desenvolvimental das crianças, principalmente dos prematuros, para que podemos identificar se essa criança está apresentando um desenvolvimento compatível com a sua idade e escolaridade. Nas avaliações mais específicas, temos a avaliação neuropsicológica, que é uma bateria de testes e instrumentos padronizados que vai trazer um perfil cognitivo dessa criança. Através da avaliação neuropsicológica, nós vamos conseguir avaliar funções como abstração, função executiva, habilidades como atenção, memória, processamento de informação, habilidades visomotoras, enfim. Através dessa avaliação, é possível identificar quais as habilidades que essa criança tem bem desenvolvidas, e quais precisam ser estimuladas. Uma boa avaliação neuropsicológica é fundamental para se estabelecer um tipo de intervenção de reabilitação particular especifica para cada indivíduo.

Nathália

Qual o papel da escola diante de uma criança com déficit cognitivo?

Juliana

Mais uma vez, eu quero enfatizar a importância da educação infantil; ou seja, os nossos esforços precisam estar voltados para a questão dessa atenção precoce. A educação infantil vem desempenhando um papel cada vez mais importante na atenção e no desenvolvimento das crianças. Para isso, ela precisa ter estrutura, precisa de uma organização e de uma finalidade pedagógica. É claro que essa finalidade pedagógica não é igual às outras etapas de ensino, mas, ela tem essa finalidade (deixou de ser vista como um espaço apenas assistencialista). A neurociência trouxe contribuições muito importantes, no sentido de que é uma fase extremamente importante para o desenvolvimento, como já falamos anteriormente. Ações, atividades estimuladoras e desenvolvidas nesse contexto podem mobilizar e otimizar o desenvolvimento infantil, portanto, constitui elementos chaves para atenção precoce. Outra questão bastante importante é a formação dos pais e dos educadores. Como falei para você, não é sempre que os pais têm as orientações precisas e objetivas sobre como cuidar dessa criança, sobre como estimular, ou mesmo os impactos que ela pode apresentar ao longo desse desenvolvimento. É muito importante essa formação, porque é muito comum vermos nas famílias que tem os bebês prematuros, uma superproteção dessa criança. O quadro já é um dificultador do desenvolvimento e ainda os pais, por medo, acabam dificultando ainda mais. Deve acontecer uma formação com os pais e os educadores; eles precisam saber desses impactos… precisam saber o que observar nessas crianças para estarem atentos como, por exemplo, a dificuldade de se organizar, de se planejar, de memória, entre outras, e isso é perceptível nas atividades diárias. É claro que se levantar uma hipótese de uma dificuldade é preciso, sim, uma avaliação sistemática, mas eles precisam saber o que observar nessas crianças. Os educadores precisam receber uma informação adequada para estarem atentos quanto a esse desenvolvimento, e entrar com intervenções o quanto antes para minimizar esse impacto no desenvolvimento.

Nathália

Tem mais alguma contribuição que você deseja trazer sobre o assunto?

Juliana

Sim. Que as escolas estejam realmente atentas, que busquem essa informação. O que você disse é realmente uma realidade. O meu tema de pesquisa de mestrado é o impacto da prematuridade no desenvolvimento infantil. Já fui coordenadora de escolas, já fui diretora e essa era uma informação que eu não tinha, e sempre vim estudando, me aprimorando e, realmente, quando eu parti para fazer a pesquisa nessa área, fiquei assustada e surpresa com tantos impactos e como a população não tem acesso a essas informações. A população em geral, professor e educador, não têm como ter esse olhar cuidadoso e criterioso. Cabe à escola observar essa criança, avaliar, detectar essas dificuldades para atuar junto a essa família, junto à equipe multidisciplinar. Muitas vezes, a escola sozinha não dá conta. Muito se pode fazer no dia a dia, com organização e informação. É preciso investir nos recursos humanos e na prática de formação desses profissionais, e a escola precisa dar condições para os outros profissionais, de acompanhamento e desenvolvimento dessa criança no ambiente escolar e em geral. Quero deixar duas sugestões de leitura para quem quer se aprofundar e queira conhecer um pouco mais sobre o assunto. Eu vou indicar para vocês o livro “Desenvolvimento de Crianças Pré-Termo” de Tatiana Riechi e Maria Valeriana. As duas são grandes autoridades no país em relação ao neurodesenvolvimento e prematuridade. A Dra. Tatiana é a minha orientadora de mestrado; vale a pena a leitura. É um livro completo e traz informações muito importantes para quem quer saber mais sobre o assunto. Outra indicação é a “Cartilha da Inclusão Escolar”. Esse foi um trabalho idealizado e coordenado pelo professor e Dr. Marco Antônio Arruda, importante pesquisador da área de neurociência. Eu participei do projeto como coautora dessa Cartilha de Inclusão, que foi lançada em 2014. Foi um projeto diferente no que se refere à sua execução porque foi um trabalho de muitas mãos, como o Dr. Marcos Lanze; então, foi feito apenas por profissionais especialistas, médicos e enfim. Foi um trabalho em que ele teve um cuidado de trazer a participação dos educadores, por isso, participei dessa execução. Nessa cartilha, que é de domínio público, qualquer pessoa pode baixar gratuitamente todo o material, apenas digitando o título no Google. Nele, vocês vão encontrar orientações práticas de como incluir crianças com transtornos de aprendizagem e transtornos do desenvolvimento. Mas, acima de tudo, vocês vão encontrar práticas e princípios da neurociência e educação. Então, como esse cérebro aprende? Como ele se desenvolve? Como otimizar as nossas aulas? Lembrando sempre que, embora o cérebro tenha um padrão, não tem uma criança que aprende como a outra, mesmo no desenvolvimento típico. Então, a cartilha é interessante porque ela traz essas orientações pensando em uma inclusão geral, nas diversidades e nas especificidades de cada criança. São duas leituras extremamente importantes que abordam o neurodesenvolvimento, prematuridade e neurociência da educação.

Nathália

Inclusive, quem quiser saber mais sobre funções executivas, esse site também possui essas informações. É bem interessante.

Juliana
Sim, é um tema bastante atual. No caso da minha pesquisa, é o que estou avaliando e pesquisando, ou seja, funções executivas e o sono em crianças nascidas pré-termo. O sono já sabemos que é muito importante para um bom desenvolvimento e aspectos cognitivos; isso, a literatura já e rica em nos mostrar. A criança prematura tem um dos grandes déficits, que é em relação ao sistema de auto regulação. O sono e função executiva são processos que envolvem a auto regulação, e, por essa questão, são as duas funções que estou avaliando e pesquisando no meu trabalho de mestrado.

Nathália

Obrigada pela sua participação, espero que possa contribuir para quem precisa dessas informações

FIM DA ENTREVISTA

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8 Comentários

  1. Aliene disse:

    Muito boa a entrevista! O congresso nem começou e já estou adorando!

  2. Ana Raquel disse:

    Excelente entrevista, parabéns! Como é importante ter esse olhar atento em relação ao desenvolvimento de nossas crianças e mostrar a necessidade que todos aqueles que participam do processo de crescimento delas tenham conhecimento e saibam o que analisar e de que forma intervir.

  3. Rosemeri Costa Guerra disse:

    Excelente matéria

  4. Samara disse:

    Olá.
    Não consegui terminar a leitura deste artigo. Fiquei confusa.
    Meu filho nasceu com 37 semanas e 2.555kg, nas não foi considerado prematuro. Não foi à uti.
    Porém, aos 25 dias de nascido apresentou sangramento as fezes, na verdade suas fezes eram puramente sangue. Ele ficou internado 08 dias e não foi fechado o diagnóstico, ficando somente uma suspeita de intolerância à lactose, a qual meses depois foi descartada.
    Ele foi diagnosticado com TEA e hoje, aos seis anos, não desenvolveu a fala, nem acompanha os conteúdos escolares da sua série, além de apresentar atraso na coordenação motora (não executa a pega do lápis, não consegue fazer atividades de cortar-colar,não sabe usar tesoura)…
    Pergunto: até onde há uma possibilidade de relação com o parto,já que ele não foi considerado prematuro – mesmo tendo nascido com 37 semanas de vida? Falar da relação *prematuridade* X *autismo* quer dizer que é uma possível causa externa, visto que muitos estudos partem da causa genética?
    Agradeço.

  5. Marta disse:

    Maravilhosa a entrevista…obrigada por compartilharem. O congresso nem começou e já estou muito motivada a acompanhar vcs sempre. Parabéns aos envolvidos!

  6. Ana Paula Nogueira França disse:

    Ameiiiiiii!!
    Como essa entrevista abriu minha mente e aguçou minha vontade em estudar mais sobre o assunto.

  7. Nelly Jany Ardito disse:

    Excelente entrevista, conheço e já trabalhei com a Juliana..excelente profissional e também como pessoa.

  8. Sirlene Maria de Lima Morei disse:

    Parabéns pela entrevista, um assunto extremamente relevante e que me interessei ainda mais. As sugestões de leituras nos dão um norte para o aprofundamento. Foi mostrado qualidade e seriedade no trabalho mesmo antes do Congresso e já estou ansiosa por ele.
    Grata e abços!